Rio Ipojuca. Nascendo em Pesqueira-PE,vem correndo mansamente por entre diversas cidades importantes dentre elas, São Caetano, Belo Jardim, Caruaru, Bezerros, Gravatá e outras tantas. Em pequena narrativa, O RONCAR DO IPOJUCA, veremos uma historieta que nos mostra um pouco do rio ontem e hoje.

O RONCAR DO IPOJUCA.

A cidade de Bezerros era uma daquelas cidades do interior onde a praça em frente à igreja matriz estava sempre repleta da presença de jovens que, ou sentavam, ou se acotovelavam sobre os bancos ali dispostos com os encostos presos ao muro de meia altura que circundava a praça.
 Era junho de 1969, a tarde mostrava algumas nuvens escuras passando com o seu costumeiro formar de imagens abstratas, mas, de céu relativamente claro, para um período de inverno. Nesse mês ainda havia muita precipitação pluvial, pois naquela época ainda não se tinha a escassez de chuvas como hoje ocorre mesmo no tempo invernoso.
A presença de pessoas se movimentando pelas ruas e calçados, era de uns "gatos pingados", como se dizia por ali para enfatizar um pequeno número, fosse lá do que fosse.  Um frio de sensação térmica de 18º era atiçado pelo vento que naquela tarde, em especial, soprava açoitando as árvores dispostas em fileiras nas calçadas da rua da matriz.
O Banco do Nordeste, BNB, única agência bancária àquela época, ficava situada na rua principal do comércio, tendo como fundos uma viela e o rio Ipojuca, que nasce na cidade de Pesqueira, atravessando várias cidades do agreste antes de desembocar no oceano atlântico em praias de Pernambuco.
Para aquela casa bancária se dirigiam as pessoas que desenvolviam atividades econômicas no município, e procuravam recursos para investimentos com juros mais baixos e prazos mais longos.
Rua Cel. Bezerra, principal pólo comercial, tinha como principal atrativo o prédio do único cinema da cidade, que aos finais de semana ficava com sua lotação esgotada, era a mesma rua do BNB, muito baixa em relação aos demais pontos da cidade, que apresenta um relevo acidentado.
A noite caia célere, antecipada pela grande quantidade de nuvens, agora bastante negras, que encobria o que restava de luminosidade do sol naquele dia. As pessoas, como se previssem algum acontecimento diferente, começavam a procurar suas casas, diferentemente dos estudantes noturnos que se dirigiam para os colégios São José e Municipal, únicos estabelecimentos de ensino noturno naquele tempo.
Na casa de dona Belinha, pequeno restaurante caseiro, onde pessoas de outras cidades que ali prestavam serviços ou estavam apenas de passagens, faziam suas refeições diárias, pagando, em geral por mensalidades, a conversa estava bastante animada, quando os ventos, já muito fortes, foram acompanhados pelos primeiros trovões.
Todos foram para o meio da rua para observar aquela repentina mudança no tempo. Fortes relâmpagos já cortavam os céus, iluminando, com uma luz branco/azulada, o teto da casa e as ruas já ficavam desertas em virtude da chuva que caía, agora com muita intensidade.
A ventania rugia retorcendo algumas antenas de tvs e levantando algum lixo que estava sobre a rua. A chuva era muito forte, caindo como se despejada em grandes baldes pelas nuvens que se movimentavam para todos os lados. Os trovões que sucediam aos brilhantes relâmpagos, assustavam crianças e adultos. Todos estavam perplexos com tanta fúria dos elementos da natureza.
Poucos minutos após começar a chuva, já as águas rolavam ladeira abaixo, arrancando o calçamento que teimava em não sair do lugar, formando pilhas e transformando em saltos de cachoeiras as águas que tomavam toda a largura da rua.
Os diretores das escolas anteciparam o término das aulas, temendo o que de pior pudesse acontecer diante do temporão que se abatia sobre a cidade.
No restaurante de dona Belinha, os comensais estavam atônitos quando alguém entrou, estabanadamente, gritando que o rio Ipojuca já estava transbordando. As pessoas que ali se encontravam foram para um beco que ficava próximo ao BNB, para dar uma espiadela no rio, e para o espanto de todos, naquele momento já se apresentava caudaloso.Uma pequena barragem em seu leito, após a ponte, começava a rugir como o cantar do anúncio de um acontecimento assustador que poderia advir em pouco tempo.            
E aconteceu, rugindo e passando em ondas que eram cada vez mais altas acima da barragem, o rio transbordou inundando a rua principal do comércio e a dos tamarindos.
Eram vinte horas, aproximadamente, várias pessoas ali se encontravam corriam até algumas casas que ficam por trás do BNB, e procuravam ajudar aquelas familia que, desafortunadamente, estavam em meio à enchente. Procuravam  retirar seus pertences levando-os para as partes mais altas. Todas as casas comerciais e residenciais da rua Cel. Bezerra, estavam agora com mais de um metro de água.
O rio reclamava seu leito invadido pelo progresso da cidade e o pouco caso do homem em respeitar o seu percurso. Rugindo e provocando sons de um roncar, que parecia dizer para se afastarem de seu caminho, o rio Ipojuca mostrou toda sua força que se transformou em tragédia para alguns: móveis cobertos de lama; eletrodomésticos imprestáveis; roupas e demais artigos de tecido, ficaram tingidos da cor marrom, retratando as águas barrentas que por ali passaram.
Quando a barrosca amainou, amenizando os momentos cruciais, todos estavam perplexos sem saber ao certo o que acontecera. Choveu 104 mm em apenas duas horas de precipitação. Quase uma tromba d’água que deixou desabrigadas muitas famílias que habitavam as áreas ribeirinhas ao rio.           
Rio Ipojuca!  Quanta história contaria se pudesse falar. Mas, quanta história está armazenada em sua trajetória desde a cidade de Pesqueira até o mar. Hoje já não corre mais água, - h²O -, em seu leito. A água que serviu para abastecer as populações de suas margens, hoje está composta, em sua maior parte, por poluentes de diversos tipos. A mão do homem está desferindo golpes e mais golpes em sua vida, cujo sangue é a água que deixa escorrer ao longo do seu leito. Um percurso pontilhado por belas cidades como Pesqueira, São Caetano, Caruaru, Bezerros, Gravatá, entre outras. E a cada passagem por elas, suas águas recebem mais dosagens mortais dos esgotos, de resíduos industriais e de agrotóxicos.
 Hoje, é um rio quase sem enchentes, até mesmo pela escassez de chuvas, cujo roncar é um gemido de dor, um pedido de socorro, pela vergonhosa forma com que o homem trata a conservação do seu leito, e não tem a menor preocupação em transformar suas águas, antes potável, em águas sem a menor serventia para o uso do próprio homem, para os animais ou
mesmo para irrigação.
O roncar do velho Ipojuca é hoje um roncar de agonia.

João Coutinho de Amorim

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Nota do autor: Narrativa de fato ocorrido
na cidade dos Bezerros - PE